quinta-feira, 9 de junho de 2011
terça-feira, 31 de maio de 2011
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Pedra dos mitos
A hora mais pesada é aquela
Que ainda vem
Enquanto eu
Sísifo
Heráldico
Da pedra e da montanha
Sopro letras de sabão
A hora mais pesada será ainda
Mais adiante
Porquanto eu
Diógenes
Estóico
Sem lupa e sem livro
A lâmpada apagada
A hora mais pesada é a que está por vir
Antes que eu
Verdugo
Wakizashi
No ventre e na garganta
Corte a última palavra
POESIA
poesia deve ser isso:
o que ferve e congela
o que assombra e desanuvia
o que apaga
e incendeia
acena
à cena vazia
poesia deve ser isso:
o que amálgama e fere
anátema do frio
o que crema e espalha
amassa, esfarela,
e entra no cio
poesia deve ser isso:
morfemas e lexias
qualquer sal
um risco
de difundir
a via
quase
abissal
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Nosso medo
Não usa sapatos novos
Nem assoma na janela
O uivo de sete paredes
Nosso medo
Ruas mal-iluminadas
Pedra assentada no ombro
O que espreita na lida
O nosso medo
Signo de nenhuma estrela
Crucificada no erro
Em vestes corruptíveis
Nosso medo
Fala pelos cotovelos
Entre ossos e lama e aço
Cerra olhos e punhos
Nosso medo
Não tem a morte no rosto
Não oferece a outra face
Ferro e fogo do verso
O nosso medo
Cálice de vinho e veneno
Inverno de mitos sangrentos
Desperta mil vezes em cena
O nosso medo
É uma montanha de pedra
Ciência e deuses no Olimpo
Rosário de cal e areia
Nosso medo
Punhado de sal na têmpora
O dia que ainda não veio
Barco na névoa espessa
Nosso medo
Cova rasa do julgamento
A linha de qual horizonte
Minúcias de cal e areia
Nosso medo
São farpas e ferpas na unha
Estrada longa e estreita
Reza pra todos os santos
O nosso medo
Ferrugem no pó e nos pelos
O sangue de metal e fungos
A certeza de não sabermos
O nosso medo
Em doze motes de cera
Ferro de muros e cercas
Arame em torno do punho
O nosso medo
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Palavras Mágicas
Em tempos ancestrais
quando pessoas & animais viviam na terra,
uma pessoa podia virar um animal se quisesse
e um animal podia virar um ser humano.
Às vezes eram pessoas
e às vezes animais
e não havia diferença.
Todos falavam a mesma língua.
Naquele tempo as palavras eram mágicas.
A mente humana tinha poderes misteriosos.
Uma palavra dita ao acaso
podia ter conseqüências estranhas.
De repente ela ganhava vida
e o que as pessoas queriam que acontecesse, acontecia.
Só o que era preciso era dizer.
Como explicar isso?
As coisas eram assim.
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(De "Shaking the Pumpkin", antologia de Jerome Rothenberg
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes
Fonte: In Knud Rasmussen, The Netsilik Eskimos, Report of the 5th Thule Expedition, Copenhagen, 1931.
Nota: “A xamateca Nalungiaq definia-se como “uma mulher comum”, tendo aprendido o poder das “palavras mágicas” (= poesia) com um tio, também xamã. O comum era não usar a fala ordinária e sim a linguagem dos xamãs, em que todas as coisas & seres eram chamados por nomes diferentes do que eram conhecidos. A consciência esquimó é notável por sua compreensão do processo poético básico”. (Rothenberg, SP, 405)
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Texto extraído do blog 'Estúdio Realidade' (link aí do lado) do poeta Rodrigo Garcia Lopes.
sábado, 8 de dezembro de 2007
pedra dos mitos
A hora mais pesada é aquela
Que ainda vem
Enquanto eu
Sísifo
Heráldico
Da pedra e da montanha
Sopro letras de sabão
A hora mais pesada será ainda
Mais adiante
Porquanto eu
diógenes
estóico
sem lupa e sem livro
a lâmpada apagada
A hora mais pesada é a que está por vir
Antes que eu
Verdugo
Wakizashi
No ventre e na garganta
Corte a última palavra
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
A maior de todas as mentiras é o mito
1.
células y plasmas y ondas y genes
no crisol
metais de eras em quantas dimensões
no crisol
todos os elementos hermeticamente iguais
no crisol
séculos y séculos y séculos levedando
no crisol
amadurecendo ao abrigo do ar y da umidade
no entanto sem tir-te nem quar-te
gases explodem regiões
y o guardião nem sequer observa
o homem desperto
2.
a explosão não acorda o homem
a luz intensa de milhares de raios todos de uma vez quando amanhece o dia
depois de uma longa viagem através do pesadelo
não acorda o homem
os sinais visíveis ainda estão indecifráveis
entre montanhas de concreto y ferro
3.
as imagens aos fatos
lendas y imagens soam mais graves
acalentam o homem com a pedra do sono
amortecem a vigília
lendas aos fatos
assim ninguém anda pelas águas
pára o sol
atravessa paredes
lê o que deus escreve
4.
qual a imagem “contida numa casca de avelã, brilha nos espaços infinitos”?
5.
talvez o aleph de *Cantor louco"
(o indefensável
leu)
enquanto a ciência cavasse em grãos de areia
6.
então as imagens no longo sonho do homem que dorme
o reflexo da lua no espelho d’água
a crista do sol
horizontes valem mais que os fatos
7.
o homem que dorme
inventou segredos y lendas
defuma a sua alma
em fumaças de mil vidas
defrontadas com a ilusão
salvadora do eito
o soma emancipado
da idéia infinita
8.
o que se compreende está certo
o homem velho é
nenhum de(u)s conhecido
o homem velho no crisol
mal saberia o homem coletivo
9.
o homem velho é consumista
de todas as ilusões
:nome pátria carro família
y por isso diz não
10.
o novo é mutante
cores fortes ou esmaecidas
luz própria y radioativa
expandir é a sua lida
11.
foi átomo saturniano
prótons nêutrons mésons
desatando o nó górdio
entra e sai ano
agora é um mutuna
luas azuis neve preta
há sinais de neônio
y o livro dos danados
no capricho dos cometas
12.
só imagens distorcidas
só o cálculo preciso
phela elevado à phela
o cheiro forte de mijo
13.
eis uma nova receita
:velar é o segredo
- ao velar se observa
o aleph sobre o aleph
elevado à si mesmo
14.
o fogo que prometeu
nem chega a ser sol
é mais cal sobre o seu
é mais sal sem iodo
é mais
frio
e
foi
15.
na curva
paralela
o infinito
da janela
16.
e a névoa
indissipável
sobre ela
sábado, 13 de outubro de 2007
Vã metáfora
Toda mulher arrepia os pelos das palavras
Esta é a diferença?
Ou a diferença está na lâmina da terra nua?
Ou na fécula da tribo?
Ou na rêfrega das ruas?
Os hormônios contam os dias, na mulher;
os feromônios dizem mais, a ambos?
Cada palavra é um propósito
de todas as pontes,
paisagens de todas as terras,
velas de todos os navios,
pirâmides sem nada dentro,
ruídos dos muros nos quintais,
naus que podem não voltar
Bem onde a besta ruge
há horizontes de mortos-vivos
sob o inclemente sol fisiológico
Erros de dados nas janelas
pestanejam nas salas abandonadas
Erma sombra das palavras
sem lapso de memória
e sem lei
Corpo etéreo o mito vaza
dos sonhos
para a quadra da vâ metáfora
terça-feira, 9 de outubro de 2007
Um poema
Apenas mais um
poema para salvar o mundo
por isso fui buscar estrelas no inferno
vaguei por Ararats & Himalaias
entornei o vinho envelhecido
em tonéis de chumbo
clonei digitais e analógicas permutas
escarrando sangue & bactérias
pelos fios da teia da antena
perfurando os olhos da cara
e decepando os dedos do medo os
dentes doentes, os duendes da palavra
porém
não dei a outra face ao facínora
não copiei as letras da tábua
e preparo as trombetas mais bestas
para o início da raia
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
No procênio
Talvez eu não devesse tocar fogo no rabo do capeta
Talvez eu não devesse gorar os planos divinos e enrabar santos e anjos de uma vez
Talvez eu não devesse golpear com lâmina fina o ventre do céu
Talvez eu não devesse soltar minhas górgonas furiosas para o gol do desempate
Talvez eu não devesse esticar o arco até o limite da sorte e olhar no centro dos olhos da medusa antes do gozo
Talvez eu não devesse vomitar na catacrese e mandar o mecenas à merda
Talvez eu não devesse assumir minha insignificância, declarar os nós na garganta, peidar númenos pressupostos e guilhotinar o self control
Talvez eu não devesse inverter o espelho, quebrar a face branca e enrugada da moral e uivar para qualquer uma das luas de saturno
Talvez eu não devesse tocar blues e jazz no meu violão de oito cordas ou cantar com meu piano exageradamente bêbado
Talvez eu não devesse mumificar a musa e lamber estriquinina no fuzuê dessas tribos de geena
Talvez, quando eu estiver vencido esta parada
Tiver acertado o alvo
sóbrio de poesia
eu entre em cena
domingo, 7 de outubro de 2007
Premeditação
apenas um pouco de fel
do fígado de prometeu
(o ambiente é uma biblioteca onde
larvas arranham livros
e traças e ratos e
merda de barata
e um poeta
portador de várius-vírus
mortais da palavra indeletável
pesca versos sem anzol)
nunca quis céu
apenas um pouco de fel
do fígado de prometeu
(o carro não desce a rampa
nesta imagem precisa
e infatigável e intangível e mágica
e o poeta nem é trem
desgovernado na serra
da palavra indeletável
pesca versos sem anzol)
nunca quis céu
apenas um pouco de fel
do fígado de prometeu
(do alto a chama do sol
é mais fria e as aves
de malagouro gostam
do amargo que escorre farto
pelo ventre liso da fonte inesgotável
da palavra indeletável
do fígado de prometeu)
palavras difíceis
1 .
fácil porque é comum
mas minha urgência são as
difíceis
incomunicáveis urgências
discando help me
palavras
verbos cheios de
sujeitos
2 .
à crueldade
dos pronomes
pessoais
oblíqua
pabulagem
quaderna
de uma
vogal
3 .
restauro
unidade mínima
com som e signi
ficado que pode,
sozinha, constituir
enunciado; forma
livre
4 .
quando é
preciso
apenas
sentimento
(quando refe
rimos um verbo
como amar, temos em
mente não apenas
o infinitivo, tomado
aí como forma de citação,
mas todas as demais formas
da conjugação)
5.
: uno:
não sou
só eu
mas
estou
só
- abstraídas
as diferentes
realizações
(marcas flexionais)
que possa apresentar -
plastada por sobre
o plasma
a aura
da palavra
6.
difícil impedir
adrenalina
feromônios
cetona esteroidal
hidroxilada
[fórm.: C19H28O2] =
testosterona
porra!
7 .
impossível palavra
para o poema
que precisa
mais que palavra
para ser
poesia


