terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Nosso medo


Não usa sapatos novos

Nem assoma na janela

O uivo de sete paredes

Nosso medo


Ruas mal-iluminadas

Pedra assentada no ombro

O que espreita na lida

O nosso medo


Signo de nenhuma estrela

Crucificada no erro

Em vestes corruptíveis

Nosso medo


Fala pelos cotovelos

Entre ossos e lama e aço

Cerra olhos e punhos

Nosso medo


Não tem a morte no rosto

Não oferece a outra face

Ferro e fogo do verso

O nosso medo


Cálice de vinho e veneno

Inverno de mitos sangrentos

Desperta mil vezes em cena

O nosso medo


É uma montanha de pedra

Ciência e deuses no Olimpo

Rosário de cal e areia

Nosso medo


Punhado de sal na têmpora

O dia que ainda não veio

Barco na névoa espessa

Nosso medo


Cova rasa do julgamento

A linha de qual horizonte

Minúcias de cal e areia

Nosso medo


São farpas e ferpas na unha

Estrada longa e estreita

Reza pra todos os santos

O nosso medo


Ferrugem no pó e nos pelos

O sangue de metal e fungos

A certeza de não sabermos

O nosso medo


Em doze motes de cera

Ferro de muros e cercas

Arame em torno do punho

O nosso medo

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Palavras Mágicas

(segundo Nalungiaq/Esquimó)


Em tempos ancestrais

quando pessoas & animais viviam na terra,

uma pessoa podia virar um animal se quisesse

e um animal podia virar um ser humano.

Às vezes eram pessoas

e às vezes animais

e não havia diferença.

Todos falavam a mesma língua.

Naquele tempo as palavras eram mágicas.

A mente humana tinha poderes misteriosos.

Uma palavra dita ao acaso

podia ter conseqüências estranhas.

De repente ela ganhava vida

e o que as pessoas queriam que acontecesse, acontecia.

Só o que era preciso era dizer.

Como explicar isso?


As coisas eram assim.



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(De "Shaking the Pumpkin", antologia de Jerome Rothenberg

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

Fonte: In Knud Rasmussen, The Netsilik Eskimos, Report of the 5th Thule Expedition, Copenhagen, 1931.

Nota: “A xamateca Nalungiaq definia-se como “uma mulher comum”, tendo aprendido o poder das “palavras mágicas” (= poesia) com um tio, também xamã. O comum era não usar a fala ordinária e sim a linguagem dos xamãs, em que todas as coisas & seres eram chamados por nomes diferentes do que eram conhecidos. A consciência esquimó é notável por sua compreensão do processo poético básico”. (Rothenberg, SP, 405)


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Texto extraído do blog 'Estúdio Realidade' (link aí do lado) do poeta Rodrigo Garcia Lopes.
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sábado, 8 de dezembro de 2007

pedra dos mitos


 

A hora mais pesada é aquela

Que ainda vem

Enquanto eu

Sísifo

Heráldico

Da pedra e da montanha

Sopro letras de sabão


 

A hora mais pesada será ainda

Mais adiante

Porquanto eu

diógenes

estóico

sem lupa e sem livro

a lâmpada apagada


 

A hora mais pesada é a que está por vir

Antes que eu

Verdugo

Wakizashi

No ventre e na garganta

Corte a última palavra



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segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A maior de todas as mentiras é o mito

para Alice, Áurea e Estrela


1.
células y plasmas y ondas y genes

no crisol
metais de eras em quantas dimensões
no crisol
todos os elementos hermeticamente iguais
no crisol
séculos y séculos y séculos levedando
no crisol
amadurecendo ao abrigo do ar y da umidade
no entanto sem tir-te nem quar-te
gases explodem regiões
y o guardião nem sequer observa
o homem desperto

2.
a explosão não acorda o homem
a luz intensa de milhares de raios todos de uma vez quando amanhece o dia
depois de uma longa viagem através do pesadelo
não acorda o homem
os sinais visíveis ainda estão indecifráveis
entre montanhas de concreto y ferro

3.
as imagens aos fatos
lendas y imagens soam mais graves
acalentam o homem com a pedra do sono
amortecem a vigília
lendas aos fatos
assim ninguém anda pelas águas
pára o sol
atravessa paredes
lê o que deus escreve

4.
qual a imagem “contida numa casca de avelã, brilha nos espaços infinitos”?

5.
talvez o aleph de *Cantor louco"
(o indefensável
leu)
enquanto a ciência cavasse em grãos de areia

6.
então as imagens no longo sonho do homem que dorme
o reflexo da lua no espelho d’água
a crista do sol
horizontes valem mais que os fatos

7.
o homem que dorme
inventou segredos y lendas
defuma a sua alma
em fumaças de mil vidas
defrontadas com a ilusão
salvadora do eito
o soma emancipado
da idéia infinita

8.
o que se compreende está certo
o homem velho é
nenhum de(u)s conhecido
o homem velho no crisol
mal saberia o homem coletivo

9.
o homem velho é consumista
de todas as ilusões
:nome pátria carro família
y por isso diz não

10.
o novo é mutante
cores fortes ou esmaecidas
luz própria y radioativa
expandir é a sua lida

11.
foi átomo saturniano
prótons nêutrons mésons
desatando o nó górdio
entra e sai ano
agora é um mutuna
luas azuis neve preta
há sinais de neônio
y o livro dos danados
no capricho dos cometas

12.
só imagens distorcidas
só o cálculo preciso
phela elevado à phela
o cheiro forte de mijo

13.
eis uma nova receita
:velar é o segredo
- ao velar se observa
o aleph sobre o aleph
elevado à si mesmo

14.
o fogo que prometeu
nem chega a ser sol
é mais cal sobre o seu
é mais sal sem iodo
é mais
frio
e
foi


15.
na curva
paralela
o infinito
da janela


16.
e a névoa
indissipável
sobre ela

sábado, 13 de outubro de 2007

Vã metáfora

Todo homem sua nos poros da palavra
Toda mulher arrepia os pelos das palavras
Esta é a diferença?
Ou a diferença está na lâmina da terra nua?
Ou na fécula da tribo?
Ou na rêfrega das ruas?
Os hormônios contam os dias, na mulher;
os feromônios dizem mais, a ambos?

Cada palavra é um propósito
de todas as pontes,
paisagens de todas as terras,
velas de todos os navios,

pirâmides sem nada dentro,
ruídos dos muros nos quintais,
naus que podem não voltar

Bem onde a besta ruge
há horizontes de mortos-vivos
sob o inclemente sol fisiológico
Erros de dados nas janelas
pestanejam nas salas abandonadas
Erma sombra das palavras
sem lapso de memória
e sem lei
Corpo etéreo o mito vaza
dos sonhos
para a quadra da vâ metáfora

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Um poema


Apenas mais um

poema para salvar o mundo

por isso fui buscar estrelas no inferno

vaguei por Ararats & Himalaias

entornei o vinho envelhecido

em tonéis de chumbo

clonei digitais e analógicas permutas

escarrando sangue & bactérias

pelos fios da teia da antena

perfurando os olhos da cara

e decepando os dedos do medo os

dentes doentes, os duendes da palavra

porém

não dei a outra face ao facínora

não copiei as letras da tábua

e preparo as trombetas mais bestas

para o início da raia

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

No procênio



Talvez eu não devesse tocar fogo no rabo do capeta
Talvez eu não devesse gorar os planos divinos e enrabar santos e anjos de uma vez
Talvez eu não devesse golpear com lâmina fina o ventre do céu
Talvez eu não devesse soltar minhas górgonas furiosas para o gol do desempate
Talvez eu não devesse esticar o arco até o limite da sorte e olhar no centro dos olhos da medusa antes do gozo
Talvez eu não devesse vomitar na catacrese e mandar o mecenas à merda
Talvez eu não devesse assumir minha insignificância, declarar os nós na garganta, peidar númenos pressupostos e guilhotinar o self control
Talvez eu não devesse inverter o espelho, quebrar a face branca e enrugada da moral e uivar para qualquer uma das luas de saturno
Talvez eu não devesse tocar blues e jazz no meu violão de oito cordas ou cantar com meu piano exageradamente bêbado
Talvez eu não devesse mumificar a musa e lamber estriquinina no fuzuê dessas tribos de geena
Talvez, quando eu estiver vencido esta parada
Tiver acertado o alvo
sóbrio de poesia
eu entre em cena

domingo, 7 de outubro de 2007

Premeditação

nunca quis céu
apenas um pouco de fel
do fígado de prometeu

(o ambiente é uma biblioteca onde
larvas arranham livros
e traças e ratos e
merda de barata
e um poeta
portador de várius-vírus
mortais da palavra indeletável
pesca versos sem anzol)

nunca quis céu
apenas um pouco de fel
do fígado de prometeu

(o carro não desce a rampa
nesta imagem precisa
e infatigável e intangível e mágica
e o poeta nem é trem
desgovernado na serra
da palavra indeletável
pesca versos sem anzol)

nunca quis céu
apenas um pouco de fel
do fígado de prometeu

(do alto a chama do sol
é mais fria e as aves
de malagouro gostam
do amargo que escorre farto
pelo ventre liso da fonte inesgotável
da palavra indeletável
do fígado de prometeu)

palavras difíceis



1 .

fácil porque é comum
mas minha urgência são as
difíceis
incomunicáveis urgências
discando help me
palavras
verbos cheios de
sujeitos


2 .

à crueldade
dos pronomes
pessoais
oblíqua
pabulagem
quaderna
de uma
vogal


3 .

restauro
unidade mínima
com som e signi
ficado que pode,
sozinha, constituir
enunciado; forma
livre


4 .

quando é
preciso
apenas
sentimento
(quando refe
rimos um verbo
como amar, temos em
mente não apenas
o infinitivo, tomado
aí como forma de citação,
mas todas as demais formas
da conjugação)


5.

: uno:
não sou
só eu
mas
estou

- abstraídas
as diferentes
realizações
(marcas flexionais)
que possa apresentar -
plastada por sobre
o plasma
a aura
da palavra


6.

difícil impedir
adrenalina
feromônios
cetona esteroidal
hidroxilada
[fórm.: C19H28O2] =
testosterona
porra!



7 .

impossível palavra
para o poema
que precisa
mais que palavra
para ser
poesia

Ao despertar dos signos

Será necessária a queda do sol
Marte explodindo sobre nova york
Chuva de pedras da lua

Serão necessários mares fervendo
O gelo dos árticos encobrindo céus
Esfoliação da pele dos ritos

Será necessário o sangue nas gruas
A merda espalhada nos condomínios
A praga de mil bestas rugindo

Será necessário plastificar o dia
A unanimidade do grito no escuro
Queimar as florestas nos meses pares

Serão necessárias moendas de carne
Gases venenosos na superfície
Baixar a cognição ao zero

Será necessária a acidez dos planos
Satanizar deuses e gênios
Tornar cinza todo amarelo

Será necessário uivar novamente
Estriquinina jogada na fonte
Sacrificar todo ente in vitro

Será necessário copiar os ossos
Desfragmentar portas e janelas
Ferir a noite permanentemente

Será necessária a massa dos muros
O inferno que faz suar muitos sonhos
Acumular dejetos na mesa

Será necessário inventar tantos mitos
Comer a alma atirada na lida
A filosofia do ouro e do sal

Serão necessários caminhos tortos
Pedra na fronte e no sapato
Transpor palavras com sub-escrituras

Serão necessárias as dores alheias
Ouvir o ruído da fome e da sede
Incendiar cidades e
aldeias

Serão necessários alguns anos ainda
O sangue vulcânico nas veias
Engravidar a mulher do próximo


Será necessário um punhal no pescoço
Mais de três bailarinas nuas
Fumar raiz de jurema

é hora de acordar

é hora de acordar

inverno terá sido
um lugar de amanhecer

é hora de acordar

nós que estamos vivos
de outra morte, não a nossa

é hora de acordar

pasto
e repasto desta proverbial
aurora

é hora de acordar

dactilóide
as torres que ruíram
um belo dia

é hora de acordar

enquanto o ar ainda mal
se respira

é hora de acordar

ninguém assegura
a segunda quadratura

é tarde demais



é tarde demais
o filho do homem
incendiou
a lira

é tarde demais
tânagras sangram
vexando
em vênus

é tarde demais
quatuórviro qual
pústula
na vida

é tarde demais
pouqüidade podre
modorra
nos resta

é tarde demais
a mofa ainda goga
o ícone
do tolo

é tarde demais
os deuses estiarão
voltando
pra casa

é tarde damais
o mar ignorado
dois ágios
encava

é tarde demais
labaredas de sal
derretem
a chama

é tarde demais
o cão ladra, late
o cãozinho
cainha

é tarde demais
o homem novo
semelhante
ao pai