sábado, 13 de outubro de 2007

Vã metáfora

Todo homem sua nos poros da palavra
Toda mulher arrepia os pelos das palavras
Esta é a diferença?
Ou a diferença está na lâmina da terra nua?
Ou na fécula da tribo?
Ou na rêfrega das ruas?
Os hormônios contam os dias, na mulher;
os feromônios dizem mais, a ambos?

Cada palavra é um propósito
de todas as pontes,
paisagens de todas as terras,
velas de todos os navios,

pirâmides sem nada dentro,
ruídos dos muros nos quintais,
naus que podem não voltar

Bem onde a besta ruge
há horizontes de mortos-vivos
sob o inclemente sol fisiológico
Erros de dados nas janelas
pestanejam nas salas abandonadas
Erma sombra das palavras
sem lapso de memória
e sem lei
Corpo etéreo o mito vaza
dos sonhos
para a quadra da vâ metáfora

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Um poema


Apenas mais um

poema para salvar o mundo

por isso fui buscar estrelas no inferno

vaguei por Ararats & Himalaias

entornei o vinho envelhecido

em tonéis de chumbo

clonei digitais e analógicas permutas

escarrando sangue & bactérias

pelos fios da teia da antena

perfurando os olhos da cara

e decepando os dedos do medo os

dentes doentes, os duendes da palavra

porém

não dei a outra face ao facínora

não copiei as letras da tábua

e preparo as trombetas mais bestas

para o início da raia

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

No procênio



Talvez eu não devesse tocar fogo no rabo do capeta
Talvez eu não devesse gorar os planos divinos e enrabar santos e anjos de uma vez
Talvez eu não devesse golpear com lâmina fina o ventre do céu
Talvez eu não devesse soltar minhas górgonas furiosas para o gol do desempate
Talvez eu não devesse esticar o arco até o limite da sorte e olhar no centro dos olhos da medusa antes do gozo
Talvez eu não devesse vomitar na catacrese e mandar o mecenas à merda
Talvez eu não devesse assumir minha insignificância, declarar os nós na garganta, peidar númenos pressupostos e guilhotinar o self control
Talvez eu não devesse inverter o espelho, quebrar a face branca e enrugada da moral e uivar para qualquer uma das luas de saturno
Talvez eu não devesse tocar blues e jazz no meu violão de oito cordas ou cantar com meu piano exageradamente bêbado
Talvez eu não devesse mumificar a musa e lamber estriquinina no fuzuê dessas tribos de geena
Talvez, quando eu estiver vencido esta parada
Tiver acertado o alvo
sóbrio de poesia
eu entre em cena

domingo, 7 de outubro de 2007

Premeditação

nunca quis céu
apenas um pouco de fel
do fígado de prometeu

(o ambiente é uma biblioteca onde
larvas arranham livros
e traças e ratos e
merda de barata
e um poeta
portador de várius-vírus
mortais da palavra indeletável
pesca versos sem anzol)

nunca quis céu
apenas um pouco de fel
do fígado de prometeu

(o carro não desce a rampa
nesta imagem precisa
e infatigável e intangível e mágica
e o poeta nem é trem
desgovernado na serra
da palavra indeletável
pesca versos sem anzol)

nunca quis céu
apenas um pouco de fel
do fígado de prometeu

(do alto a chama do sol
é mais fria e as aves
de malagouro gostam
do amargo que escorre farto
pelo ventre liso da fonte inesgotável
da palavra indeletável
do fígado de prometeu)

palavras difíceis



1 .

fácil porque é comum
mas minha urgência são as
difíceis
incomunicáveis urgências
discando help me
palavras
verbos cheios de
sujeitos


2 .

à crueldade
dos pronomes
pessoais
oblíqua
pabulagem
quaderna
de uma
vogal


3 .

restauro
unidade mínima
com som e signi
ficado que pode,
sozinha, constituir
enunciado; forma
livre


4 .

quando é
preciso
apenas
sentimento
(quando refe
rimos um verbo
como amar, temos em
mente não apenas
o infinitivo, tomado
aí como forma de citação,
mas todas as demais formas
da conjugação)


5.

: uno:
não sou
só eu
mas
estou

- abstraídas
as diferentes
realizações
(marcas flexionais)
que possa apresentar -
plastada por sobre
o plasma
a aura
da palavra


6.

difícil impedir
adrenalina
feromônios
cetona esteroidal
hidroxilada
[fórm.: C19H28O2] =
testosterona
porra!



7 .

impossível palavra
para o poema
que precisa
mais que palavra
para ser
poesia

Ao despertar dos signos

Será necessária a queda do sol
Marte explodindo sobre nova york
Chuva de pedras da lua

Serão necessários mares fervendo
O gelo dos árticos encobrindo céus
Esfoliação da pele dos ritos

Será necessário o sangue nas gruas
A merda espalhada nos condomínios
A praga de mil bestas rugindo

Será necessário plastificar o dia
A unanimidade do grito no escuro
Queimar as florestas nos meses pares

Serão necessárias moendas de carne
Gases venenosos na superfície
Baixar a cognição ao zero

Será necessária a acidez dos planos
Satanizar deuses e gênios
Tornar cinza todo amarelo

Será necessário uivar novamente
Estriquinina jogada na fonte
Sacrificar todo ente in vitro

Será necessário copiar os ossos
Desfragmentar portas e janelas
Ferir a noite permanentemente

Será necessária a massa dos muros
O inferno que faz suar muitos sonhos
Acumular dejetos na mesa

Será necessário inventar tantos mitos
Comer a alma atirada na lida
A filosofia do ouro e do sal

Serão necessários caminhos tortos
Pedra na fronte e no sapato
Transpor palavras com sub-escrituras

Serão necessárias as dores alheias
Ouvir o ruído da fome e da sede
Incendiar cidades e
aldeias

Serão necessários alguns anos ainda
O sangue vulcânico nas veias
Engravidar a mulher do próximo


Será necessário um punhal no pescoço
Mais de três bailarinas nuas
Fumar raiz de jurema

é hora de acordar

é hora de acordar

inverno terá sido
um lugar de amanhecer

é hora de acordar

nós que estamos vivos
de outra morte, não a nossa

é hora de acordar

pasto
e repasto desta proverbial
aurora

é hora de acordar

dactilóide
as torres que ruíram
um belo dia

é hora de acordar

enquanto o ar ainda mal
se respira

é hora de acordar

ninguém assegura
a segunda quadratura

é tarde demais



é tarde demais
o filho do homem
incendiou
a lira

é tarde demais
tânagras sangram
vexando
em vênus

é tarde demais
quatuórviro qual
pústula
na vida

é tarde demais
pouqüidade podre
modorra
nos resta

é tarde demais
a mofa ainda goga
o ícone
do tolo

é tarde demais
os deuses estiarão
voltando
pra casa

é tarde damais
o mar ignorado
dois ágios
encava

é tarde demais
labaredas de sal
derretem
a chama

é tarde demais
o cão ladra, late
o cãozinho
cainha

é tarde demais
o homem novo
semelhante
ao pai